Reflexão: Palavras amargas nos 250 anos de Lages

Reflexão: Palavras amargas nos 250 anos de Lages

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Porque nem tudo são flores e pinhão nesses dois séculos e meio de Lages, Rui Alvacir Netto (que devemos dar um pequeno desconto por sua postura exageradamente crítica), faz uma ponderação que merece pelo menos reflexão nestes tempos de celebrar 250 anos de existência da paróquia. Ele escreve:

“A partir da década de 1990 ate hoje (o que eu chamo de a era colombina), Lages entrou em um fase de estagnação incontestável. E que parece, cada vez mais, ser irreversível já que a era colombina pode estar se esgotando conforme demostram as três ultimas eleições em Lages. Não é impossível, porem, que milagres aconteçam e que o Messiânico Colombo, eleito Presidente do Brasil, faça por Lages, aquilo que ate gora não fez, nem como prefeito, nem como governador”.


CITA ALGUNS DADOS

“A era colombina foi devastadora para Lages. No ranking do PIB, Lages despencou e vai continuar a cair. A população estagnou (151.235 em 1991 e 158.620 em 2016). Se considerarmos apenas a diferença entre os nascidos aqui e os que morreram aqui, chegamos a conclusão que maios ou menos 40 mil lageanos deixaram a cidade na era colombina. Na educação, somos medíocres. Os resultados do ENEM comprovam isso com larga margem. Temos um índice de pobreza em torno de 30% e assim por diante”.


AINDA SEGUNDO RUI ALVACIR

As “grandes” comemorações de 250 anos de fundação (por Antônio Corrêa Pinto, abastado escravista e negociante, capitão-mor do sertão de Curitiba) de Lages revelam que os grandes atos de violências e de injustiças históricas ainda dormem em berço esplêndido, como se nunca tivessem acontecido (e como se jamais será necessário reconhecer e se redimir). Por mais piegas e risível que possa parecer, tenho convicção que a mesmice e o atraso crônico que impõe a Lages à pecha de cidade pobre deve-se (além da sua elite reacionária, além dos vanguardeiros do atraso, além da sua mídia bajuladora e servil, além da imensa hipocrisia social) a sua permanente recusa em reconhecer e pedir perdão pelas imensas dividas sociais herdadas dos imensos crimes cometidos contra a dignidade humana”.


AS DÍVIDAS SOCIAIS HERDADAS

“Refiro-me às quatro históricas dividas sociais que precisam ser resgatadas:

(i) O extermínio criminoso e covarde de milhares de índios, que se iniciou antes mesmo da fundação da cidade; se expandiu imensamente com a Carta Régia assinada por D. João VI, em 5 de novembro de 1808, determinando guerra aos indígenas; e se multiplicou em barbárie e demência com os chamados “bugreiros” do qual o lageano Martinho Bugreiro era o “herói” mais conhecido;

(ii) A exploração cruel dos escravos, sobre os quais a Uniplac não revelou uma linha quando apresentou o seu projeto sobre o caminho das tropas; e sobre os quais a elite intelectual lageana mostra vergonhosa ignorância, ou inescrupulosa conivência racista. Em 1777, no primeiro cadastramento da população lageana, 119 negros já eram escravos, em uma população de 662 pessoas. No ano de 1875, o número de escravos em Lages supera o da capital Desterro. Era o segundo lugar na província, totalizando 1.658, atrás somente de Laguna;

(iii) A exclusão violenta, covarde e sistemática dos caboclos à custa da concessão de terras públicas e da expulsão de caboclos pobres, garantido assim o caminho não apenas para a estrada de ferro, mas para o branqueamento definitivo da população do planalto. Além do massacre a que foram submetidos no Contestado, nas décadas seguintes, o incentivo à ocupação das terras por imigrantes europeus consolidou o processo de exclusão sistemática desse contingente de seres humanos; cujas gerações sobrevivem de mendigar trabalho, pão e caridade;

(iv) A exploração desumana de milhares de famílias, sub empregadas e usadas pelas ricas famílias madeireiras, que após saquear toda a riqueza das florestas naturais, foram desfrutar dos seus lucros em outros paraísos, deixando para trás, sem qualquer culpa, periferias e favelas lotados de excluídos e de mãos de obra pouco ou não qualificada, vivendo da “caridade” da politicalha dominante.

250 anos e não se aprendeu nada de CIVILIDADE”.

lagespjr

O texto faz um contraponto ao passado distante e não tão distante da cidade que completa 250 anos de fundação nesta terça-feira, 22 de novembro de 2016

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8 Comentarios

  1. “O extermínio criminoso e covarde de milhares de índios”. Já deve ter lido Avé-Lallemant, Saint-Hilaire ou Hans Staden; Você refere-se aos índios como sendo todos faladores do mesmo idioma e pertencentes de uma mesma nação; Povos que respeitavam o meio ambiente e viviam em harmonia…

    Qual o problema então deles dividirem um pouco de suas terras com os colonizadores? afinal, no século 18 cada índio teria em média 120 hectares de terra (contando aspróprias para o cultivo);

    Só sabem falar de “dividas sociais” e bla bla bla. Deveriam ensinar no primeiro dia da faculdade de historia que: “A história não possui lados (esquerda ou direita), já os historiadores sim”;

  2. Concordo em número, gênero e grau, com as palavras do Rui. Realmente a “era do colombismo”, foi a grande responsável pela derrocada de nossa cidade. A partir do momento que o prefeito da época, Colombo, começou a acumular mandatos, com o intuito único de solidificar sua carreira política, a cidade, esquecida, começou seu processo de degradação. Não têve coragem, conhecimento, visão para diversificar a economia, quando a cidade era rica, próspera e respeitada. Não têve visão para perceber que de onde apenas se retira e não se repõe, um dia acaba. Foi assim com o ciclo da madeira. Acabou e cidade acabou junto. Infelizmente não se vislumbra a longo ou médio prazo uma recuperação de nossa economia. Não existem projetos consistentes, não há nenhuma emprêsa de grande porte com intenção de se instalar em nossa cidade, a não ser aquelas mentirosas de campanha política. Infelizmente é esta a nossa realidade. Agora tivemos que engolir um candidato eleito, com 62% de rejeição apenas para satisfazer seu ego. Triste……

  3. Marcos a história fala por si, os historiadores de acordo com seus vieses e pontos de defesa executam a narrativa adequada a eles, mas convenhamos que os colonizadores nunca foram bons moços na história da humanidade e a tendência saqueadora pairou sobre a nossa América e a questão não foi a divisão boazinha das terras, os bandoleiros dizimaram centenas de tribos, culturas, tradições, línguas, isso não é nada alvissareiro, se informe um pouco mais sobre a história e refaça sua tese de bondade ocidental.

  4. Prezado Edson, diz a regra que a história é contada pelos vencedores,mas parafraseando darcy ribeiro,não quero estar na pele dos que me derrotaram. Acredito que numa perspectiva histórica estamos perdendo uma grande oportunidade, de forma coletiva , fazermos um “mea-culpa”. Não só por ser um socialista,não confunda com comunista, mas o quê na nossa história nós fizemos pela “maioria”?Democracia é o quê?Votar? Consumir?Estamos,eu acredito, mais do que em qualquer momento da nossa história,na maior encruzilhada das nossas vidas.Já fui distorcido ,e já vi, distorções quanto á conceitos de estado, e é exatamente por isso que, não só eu, mas varios ,poderia até dizer que somos maioria com dificulddade de organização, de construir uma real alternativa aos “vencedores”. E acredite, se não dermos responsabilidade social ao estado, estamos fadados a’ barbárie, e a história será cruel contra todos nós.Ou principalmente contra os “vencedores”.

  5. A história de uma comunidade é semelhante à história de uma família. Ela é composta por fatos positivos e negativos. Cada filho, de acordo com seu caráter, vai destacar o que melhor contribui para a auto-estima familiar ou para por a família “para baixo.” Alguns fatos do passado devem ser lembrados, estudados para melhor planejamento do futuro. Mas, como na família, para tudo há um tempo apropriado. Ninguém precisa se portar como como “desmancha prazer” destacando o seu MAS… em momentos que se lembra a origem comum com foco no positivo da história que bem ou mal, contribuiu para o senso de identidade que se tem hoje. As mazelas, as injustiças e até os crimes cometidos na história de Lages, não são privilégios desta e nesta sociedade lageana. Por ex. Correia Pinto não fundou o escravismo. Ele vivia num contexto colonial que aceitava isto. Ele não foi um santo nem herói, mas foi a partir da caravana que partiu de Santos, em meados de agosto de 1766, que nasceu a Lages de hoje. O passado não precisa ser lembrado com rudeza. Mas o ano possui 12 meses em que se pode escrever e se refletir sobre o que é preciso fazer ou não para melhorar a Sociedade presente. O resto, bem ou mal, precisa ser lembrado para que se tenha um senso mínimo de que quadrante viemos e para qual quadrante se quer ir. E a História é uma constante construção, que às vezes depende do humor de quem a faz ou de seus próprios interesses. Por isso ninguém é dono dela. Mas parabéns aos que se dedicam a estudá-la nas mais diversas escolas de pensamento. Feliz o filho que não é órfão, conhece seus pais e avós e procura buscar neles os pontos positivos como referencia para a sua existência e os negativos para não repetí-los. Mas para tudo há um tempo determinado, apropriado, para não soar confuso, sem propósito útil.

    • Cláudio, só uma correção: não foi a partir da caravana que partiu de Santos, em meados de agosto de 1766, que nasceu a Lages, pois a vila já existia a bom tempo, tanto que Correia Pinto tinha fazenda aqui e conhecia bem a região, na verdade ele só veio tomar posse, pois estas terras eram da coroa espanhola com espanhois vivendo aqui.

  6. Parabéns pela sua crítica Rui. Sua consciência se expande além das histórinhas que nos contam na cidade. A questão indígena, dos escravos e das famílias ricas são um fato suprimido propositalmente por mãos que vem de cima. Comparada às cidades de porte semelhante no estado, Lages é pobríssima em cultura. Tínhamos grandes aldeias de índios, hoje todas em terras de fazendeiros, fechadas para que as pessoas possam visitar e crescer em conhecimento. Esse egoísmo e elitismo que condiciona a cidade até hoje, são protagonistas da mazela lageana. Lages tem tudo para ser um dos melhores lugares para se morar, mas para isso, há de entrar a pessoa certa, que irá realizar as conexões certas para que isso possa acontecer. Enquanto isso, vamos vendo nossa elite burguesa andar sobre saltos altos em seu egoísmo.

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