Um milhão de araucárias arrancadas por ano na Serra

Um milhão de araucárias arrancadas por ano na Serra

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Pense nesse número: 1.000.000 araucárias.

Estimativa não é minha, mas de um engenheiro agrônomo analisando uma prática que ele não concorda, mas que infelizmente virou rotina nas propriedades da Serra Catarinense. Capatazes e os próprios donos de fazenda, ao percorrerem os campos levam com eles o facão para colocar no chão qualquer pinheirinho de araucária que se atrever aparecer nos descampados. O número estimado considera a quantidade de propriedades e a decisão quase coletiva de afastar a ‘ameaça’ que passou a ser a araucária nos campos. Os pinheiros, depois de crescidos, são intocáveis. Porém, crescendo, inviabilizam áreas para plantio e até o pastoreio e pastagem de gado. Logo, a alternativa que muitos encontraram foi literalmente ‘cortar o mal pela raiz’.


CONSEQUÊNCIA DA PRÁTICA

Com essa prática corriqueira e silenciosa nas propriedades, a renovação da floresta de araucária é muito pequena. Os pinheiros velhos seguem vistosos. Mas os novos se veem muito pouco. E não tem fiscalização ou ‘conscientização’ para impedir isso, visto que a propriedade é privada sendo quase impossível que alguém seja culpado por manter o terreno limpo, inclusive das araucárias que nascem guachas.


QUAL CAMINHO?

Só existiriam dois caminhos para que a floresta de araucária se renovasse. Um deles seria o governo indenizar o dono de terras para que deixe os novos pinheirinhos vir ao mundo. E isso é quase impossível. O outro caminho é o manejo sustentável, onde se corta árvores velhas que já cumpriram seu ciclo, dando espaço às novas araucárias.


ALGUNS PASSOS RUMO AO

MANEJO SUSTENTÁVEL

Foi debatida no Centro Administrativo do Governo do Estado, em Florianópolis, a proposta de Manejo Sustentável da Araucária, elaborada pelo CAV (Udesc) em parceria com a Secretaria da Agricultura de Lages. Uma comitiva de professores do CAV, liderados pelo professor André Hess, compareceu à atividade, recebida pelos secretários de Estado da Casa Civil, Nelson Serpa, e da Agricultura, Moacir Sopelsa.

araucaria002Professor Hess apresenta dados relacionados ao estudo para manejo da araucária durante a reunião na Capital


ENCAMINHAMENTO EM FLORIPA

A proposta é baseada em estudos científicos que demonstram a necessidade de manejo da araucária. Estes estudos foram apresentados pela comitiva, reivindicando-se apoio ao Governo do Estado para avançar no diálogo com vistas ao aperfeiçoamento da legislação acerca do assunto. Será realizado um trabalho técnico envolvendo as secretarias de Estado da Agricultura e de Desenvolvimento Sustentável e a Casa Civil.


INÍCIO DA DISCUSSÃO EM LAGES

Em julho de 2015 foi iniciado este debate em Lages com base em algumas pesquisas desenvolvidas pelo professor André. Um primeiro diálogo foi estabelecido em Lages, levantando diversas sugestões. “Encaminhamos este mesmo projeto ao Fórum dos Secretários da Agricultura da Amures, que apoiou e sugeriu o envio da ideia ao Governo do Estado com a finalidade de se inteirar do documento e realizar mudanças”, comenta o secretário de Agricultura de Lages, Moisés Savian, ressaltando que o manejo está relacionado a áreas adensadas (florestas).

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Savian (segundo da esquerda) e a ideia do manejo como forma de garantir a renovação da floresta de araucária

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Moacir Sopelsa e Fernando Driessen (ao fundo) acompanharam a apresentação da proposta do manejo da araucária


Imagens: Robson Spuldaro (Secretaria da Agricultura de Lages)


QUAL A IDEIA?

Nas áreas pesquisadas, a ideia é retirar 10% dos indivíduos (árvores) e retornar à área 20 anos após para que o manejo seja realizado, semelhante ao que ocorre na Amazônia brasileira. Talvez com isso, os pinheirinhos que surgem nos campos consigam uma sobrevida, deixando de ser um inço, para se tornar uma alternativa de renda, inclusive.

3 Comentarios

  1. Boa tarde Edson! Além da conscientização, creio que a punição às serrarias e para quem vende também é fundamental. Ocorre que que não adianta fazer denúncias que a Polícia Ambiental não pune. Sei de várias denúncias que foram feitas em S.J.Cerrito p.ex, mas a Polícia Amb, nem a Fatma não fizeram nada. As serrarias (todas, ou quase todas) continuam cortando pinheiro araucária, inclusive na época do pinhão e ninguém faz nada. Inclusive a Pol.Amb sabe que o transporte da madeira (pinheiro brasileiro) é feito à noite para as serrarias para se escapar da fiscalização. Eu mesma já denunciei várias vezes mas ninguém foi ao local.

  2. Como e difícil as coisas no Brasil. Por isso padecemos para encontrarmos nosso desenvolvimento. Não precisa nem de estudos científicos para resolver este problema. Basta aplicar o que regula o plantio de pinus: plantou dentro de um projeto controlado pelo governo, e fazer o corte quando interessar ao plantador ou dentro das normas estabelecidas. Este Brasil está precisando que se tome “vergonha na cara” por parte de quem tem o poder de decidir.

  3. Me parece ser um número muito extrapolado este um milhão de araucárias, não temos tantas assim na serra, a questão são as alternativas para ainda se ter uma sustentabilidade no uso destas espécimes que se não houver a fiscalização, consciência do serrano e penalizar a avidez dos lucros, senão, somente as conheceremos em fotos do passado e em livros.

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