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Lages e uma de suas lendas

Porque neste domingo é dia de Nossa Senhora dos Prazeres, a Padroeira de Lages, único feriado municipal da cidade, compartilhamos o texto que Raul Arruda Filho escreveu sobre a Lenda que remete à Santa, cujo conteúdo a Assessoria de Comunicação da Prefeitura distribuiu ao devotos:

Nossa Senhora dos Prazeres e a lenda da destruição de Lages

Contam os livros de História que a Vila de Nossa Senhora dos Prazeres das Lajens, fundada em 22 de novembro de 1766, recebeu essa denominação em homenagem à santa que era de devoção do fundador, o Capitão-mor do Certão de Curitiba Antonio Correa Pinto de Macedo. Isso aconteceu na época em que o sul do Brasil (São Paulo, Santa Catarina, Paraná) era um território inexplorado e os povos indígenas tentavam sobreviver ao instinto predador dos poucos fazendeiros que estavam se instalando na região. 

Com o passar do tempo o imaginário popular ampliou a importância da santa, mas também forneceu um pouco de folclore. Uma das lendas mais conhecidas na região está relacionada com a serpente do Tanque (Parque Jonas Ramos). Em tempos remotos uma mulher negou-se a identificar o pai do filho que trazia no ventre. Pressionada pela convenção social, que não aceitava mães solteiras, abortou. Em seguida, jogou o feto dentro do lago onde eram lavadas as roupas dos habitantes do povoado. Forças sobrenaturais transformaram a criança em uma enorme serpente (e que se projeta, metaforicamente, no rio Carahá). Diante da possibilidade do réptil destruir a Vila, Nossa Senhora dos Prazeres colocou um de seus pés sobre a cabeça da serpente, imobilizando-a. No entendimento popular, no momento em que a cobra se libertar, a catástrofe será sem precedentes.

No entrecruzamento entre lendas e superstições, uma versão do “causo” sugere que a mulher grávida teria sido a filha de Antonio Correa Pinto de Macedo. Para alguns historiadores essa hipótese não apresenta base sólida, pois o fundador da cidade não deixou descendência. Outra variação relaciona a fábula com as três profecias do monge João Maria. Na primeira década do século XX, um dos três homens a quem se atribui o papel de líder religioso das tropas revolucionárias na Guerra do Contestado (João Maria de Agostinho, João Maria de Jesus e José Maria) esteve acampado durante alguns dias nas proximidades de Lages. Depois de ter profetizado que “chegaria um tempo com muito pasto e poucos animais”, decretou que o destino do lugarejo estava ligado a algumas condições: 1) preservar a cruz de madeira que ele ergueu em cima do morro da Cacimba, fonte d’água onde saciou a sede; 2) manter a imagem de Nossa Senhora dos Prazeres no altar da Igreja Matriz (elevada à categoria de Catedral Diocesana em 1927), onde impede que a serpente do Tanque se liberte; 3) evitar que as ruas do vilarejo sejam pintadas de preto.

Desses três requisitos, dois ainda vigoram. A imagem da santa continua onde deveria estar. A cruz deteriorou-se no tempo e os seus restos estão preservados em uma redoma de vidro, na Igreja da Santa Cruz. Em contrapartida, o asfaltamento se mostra progressivo e irreversível, de acordo com as propostas da modernidade.

O fim de Lages está próximo? Evidentemente que não. Não se deve confundir a realidade com a ficção. E a população lageana, por enquanto, conta com a proteção de Nossa Senhora dos Prazeres. Em todo caso, a hipótese da cidade ser devastada por uma inundação não pode ser descartada. Lages está situada em cima do aquífero Guarani, o maior reservatório subterrâneo de água doce do planeta. 

As duas fotos do post (Catedral e Nossa Senhora dos Prazeres) são da jornalista Aline Borba e o texto de Raul Arruda Filho

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