Polícia

Clube FM: Bastidores do crime dos PM

Comunicador Daniel Goulart realizou com exclusividade uma entrevista com o Delegado Sérgio de Souza. Ele é titular da DIC, divisão que investigou os detalhes da execução praticada contra uma pessoa em Lages e que teve o envolvimento de três policiais militares, um deles, uma policial, além de um quarto envolvido que não é do quadro da PM. Não é permitida a divulgação dos nomes dos envolvidos pelo fato do processo seguir sob o manto do sigilo judicial.

Registro de arquivo de uma entrevista do delegado Sérgio Souza. Sobre o esclarecimento da execução que tem policiais militares envolvidos, a autoridade policial falou com exclusividade à Clube FM

AMEAÇA A OUTRO POLICIAL

Na entrevista levada ao ar nesta terça-feira, 24, no programa Clube Repórter da Rádio Clube FM, a autoridade policial detalhou circunstâncias do crime. Inclusive relatando o perfil da vítima que fora assassinada, assim como a hipótese de que uma testemunha, outro policial, correr risco de ser assassinato pelos acusados, como vingança por desconfiança de que estariam sendo delatados. Confira o que diz o Delegado Sérgio Souza nessa conversa exclusiva a Daniel Goulart:

Daniel Goulart  – Qual foi a motivação do crime?

Delegado Sérgio – A motivação se deu por conta disso, os autores estavam cansados, sobretudo os policiais militares envolvidos e o que não era policial militar, estavam cansados de presenciar situações onde a vítima, Erick era flagrada, processada em crimes predominantemente de furto e sempre conseguia sua liberdade. Era solto e novamente voltava à prática desse tipo de delito. Por conta disso os acusados resolveram fazer vingança privada, localizar e executar a vítima.

Daniel Goulart – Quantas passagens pela polícia tinha o Eric, vulgo Pedrão?

Delegado Sérgio – De fato o Eric não era uma que tinha bons antecedentes. Ele possuía diversas passagens. São mais de 70 boletins de ocorrência que ele possuía. Ele já teve três TC (termos circunstanciados) por crimes diversos, 18 inquéritos policiais e cinco prisões em flagrante. E mesmo assim continuava nas ruas, livre e praticando novos crimes.

Daniel Goulart – É verdade que os PMs tramavam a morte de uma das testemunhas:

Delegado Sérgio – Durante as investigações nós conseguimos informações, fidedignas ali, através de trabalho técnico especializado, onde dois dos três policiais militares e aquele terceiro que não era policial militar, eles acreditavam que uma determinada pessoa seria quem havia delatado eles para as autoridades, ajudando a identificar a participação deles. E com isso, entre esses três investigados, surgiu sim a vontade deles de, literalmente, apagar a testemunha. Eles utilizaram o termo ‘a testemunha iria amanhecer com a boca cheia de formiga logo, logo.

Daniel Goulart – Informação que chegou à nossa Central de Jornalismo é de que essa testemunha seria um próprio policial. O senhor confirma isso?

Delegado Sérgio – Na verdade, nem tem essa testemunha. Não tem um policial como testemunha na investigação. Mas na cabeça dos investigados, eles acreditavam que um outro policial militar era testemunha do processo, do inquérito policial e por isso eles realizaram essa reunião e dali surgiu essa vontade deles de se vingar da testemunha. Por conta deles acharem que a suposta testemunha havia delatado eles.

Daniel Goulart – Possivelmente matariam o próprio companheiro?

Delegado Sérgio – O termo que eles utilizaram de que a testemunha iria amanhecer com a boca cheia de formiga dá a entender que sim, que a intenção deles era matar essa testemunha. Calar a boca dela.

Daniel Goulart – O investigado que não é PM passou por cinco depoimentos. Em qual momento ele confessou o crime?

Delegado Sérgio – O primeiro interrogatório ele mentiu. Ele falou que não tinha conhecimento dos fatos. Após o encerramento desse interrogatório foi mostrado ao investigado as provas que já possuíamos, com provas técnicas, imagens e outros depoimentos. Foi quando ele viu que a investigação já tinha conhecimento quase que total do fato ocorrido. E visando pleitear até responder o processo em liberdade, ele começou a colaborar e confessar a participação dele e dos demais envolvidos. A partir do segundo interrogatório que ele começa a esclarecer o fato como ele ocorreu.

Daniel Goulart – E como ocorreu o fato?

Delegado Sérgio – Dois dos policiais militares e esse envolvido que não é PM, eles jogavam futebol juntos, já tendo uma convivência de um mesmo meio social e costumavam sair juntos. Por conta dessa relação, a pessoa que não é policial já tinha sido vítima de crime de furto do Eric, vulgo Pedrão. E por conta desse furto eles nunca viram o Pedrão ser preso por conta daquilo. E na cabeça de muitas pessoas, a punição só ocorre quando a pessoa é presa, e isso não é verdade. Tem processo e uma infinidade de penas. Por conta dessa amizade entre eles, da conversa que tiveram sobre o furto e da conduta e histórico do Eric, desde esse fato, que mesmo sendo preso, respondendo diversos processos continuava nessa vida de realizar certa prática delituosa. Acredito que isso causou um desconforto tanto para o policial quanto para aquele não policial e dali surgiu a ideia deles poderem praticar por conta própria a vingança privada.

Daniel Goulart – Dos três PMs envolvidos, uma é policial feminina. Os três participaram diretamente na execução?

Delegado Sérgio – Atos executórios mesmo quem praticou foi só um policial militar. Que foi lá e estrangulou a vítima. A policial militar feminina ela estava presente, ela presenciou uma série de atos ali executórios, no entanto, ela própria não executou atos executórios.

Daniel Goulart – Ela não colocou a mão?

Delegado Sérgio – Não, ela não colocou a mão. Só que nós agentes públicos, sobretudo policiais, em serviço ainda nós temos a obrigação de em qualquer situação que caracterize crime, nós temos a obrigação de fazer cessar a conduta e levar aquela pessoa (que estiver cometendo crime) a ser responsabilizada a frente de quem quer que seja. Seja delegado de polícia, seja no caso ali outras autoridades. Se eu como delegado de polícia presencio um policial meu torturando e executando uma pessoa até levar essa pessoa à morte e fico inerte, eu respondo igualmente aos atos praticados por ele. Respondo como se tivesse praticado a morte, dolosa. É o que aconteceu com a policial do sexo feminino. Ela estava presente, ela presenciou, ela aderiu à ideia, ela aceitou. Por isso ela está presa e vai responder esse processo. E o outro policial militar, o terceiro, não estava presente no momento. No entanto, ele é o que orquestrou o negócio junto com o outro policial. Ele é o que viabilizou toda a empreitada criminosa.

COLABORAÇÃO DA PM

Daniel Goulart indagou sobre a colaboração dada pela PM para contribuir à elucidação do crime. O delegado Sérgio de Souza apontou que não poderia detalhar essa situação porque são questões internas da Polícia Militar de investigação. Entretanto, apontou que o Comando da PM em Lages, através do Tenente Coronel Alfredo, tão logo teve conhecimento do próprio titular da DIC sobre a investigação, colaborou e facilitou acesso a documentos e informações (inclusive filmagens) que ajudaram na elucidação do ocorrido.

Os três integrantes da PM, sendo uma policial do sexo feminino, respondem a inquérito militar aberto no âmbito do Comando da Corporação em Lages. O trio está recolhido em espaços próprios da PM para esse tipo de situação, enquanto se aguarda a instrução do processo.

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